Resenha de “As Garotas” de Emma Cline

Eu vou confessar: Está difícil escrever a resenha de As Garotas, da escritora Emma Cline! O livro está entalado na minha garganta como um choro ou um grito por todas as mulheres. Por minha filha! Este é um livro daqueles que ativam muitos gatilhos. Questões de abusos sexual, drogas, posição de oprimido e opressor que facilmente pode ser trocada. Ele esbarra no limite do politicamente correto e incorreto. Um vai e volta em situações, emoções, certezas…

“Não contei a ele que preferia nunca ter conhecido Suzanne. Que preferia ter ficado em segurança no meu quarto nas montanhas secas perto de Petaluma, as prateleiras repletas com meus livros de infância favoritos, suas lombadas enfeitadas a ouro. E de fato eu desejava isso. Mas havia noites em que, incapaz de dormir, eu descascava lentamente uma maçã à beira da pia, deixando a espiral se encompridar sob o brilho da faca. A casa toda escura à minha volta. E às vezes a sensação não era de arrependimento. Era de saudade.”

Emma Cline
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Resenha: O lado extraordinário de se perder

A resenha de hoje é de um livro lido em primeira mão pela pessoa que vos fala aqui: “O lado extraordinário de se perder!”. Eu fui convidada a ler o livro para escrever a orelha da capa da versão física publicada no Brasil.

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Ler como um autor: leitura crítica

Todo autor deve ter algo muito claro em mente: para ser um bom escritor é necessário ser um bom leitor. Você com certeza já deve ter ouvido uma frase assim. Mas o que isso significa? Vem comigo esclarecer este mistério.

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O dilema do autor iniciante: sobre o que escrever? Trama visísel e trama profunda.

Compreender o que é trama profunda e trama visível ajuda muito a pensar sobre a escolha dos temas que você quer abordar na hora de escrever seu livro. Não que seja necessariamente uma técnica para planejar uma história. Mas ajuda demais a entender qual vai ser o combustível que vai levá-la adiante.

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Metamorfose: uma resenha como você nunca viu!

Troque seu livro motivacional por este aqui! Metamorfose (1915) é talvez o livro mais famoso de Kafka. Kafka é considerado um dos precursores do absurdo e sua obra já apresenta traços do existencialismo em seus personagens que lembram bastante, na minha opinião, o estilo posterior empregado por Camus. 

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Escritora Germaine de Staël

“Alemanha, terra de poetas e pensadores. Talvez você não saiba, mas essa expressão surgiu desta mulher.

Germaine de Staël nasceu em Paris em 1766 e faleceu também em Paris em 1817. Ela era filha de um ministro do governo francês e era separada de um diplomata. Seguia sua vida de forma muito independente. Cresceu cercada de escritores importantes da França nas festas e sarais que sua mãe organizava.

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Por que e como escolher um público alvo para seu livro?

Eu sempre tive essa ideia romantizada de um autor na máquina de escrever ou no computador escrevendo. Depois ele envia seu livro para editoras. Recebe um não atrás de não, até que um dia uma editora aposta na ideia e no livro dele, publica e ele estoura! De repetente um gênio da literatura surge e ele tem o contrato com a editora e vive só para escrever.

Mais alguém já teve essa ideia? Pois é, que ideia errada. Neste post eu vou falar sobre alguns pontos que vão além da escrita. Antes de escrever a primeira letra no papel, existe algo muito importante a se pensar: o público-alvo + tema. E isso faz parte da nossa estratégia de Marketing como autores.

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Frankenstein: o mito do Prometheus moderno. Ou a moça com tédio que escreveu uma das primeiras ficções científicas da história

Um ano sem verão. Após a erupção do vulcão Tambora, na Indonésia em 1815, o mundo ficou envolto de sua fumaça e na Europa todo ano de 1816 foi frio, escuro e chuvoso. Numa casa de féria em Geneva, um grupo de amigos resolve fazer uma competição de histórias horripilantes. Desta brincadeira nascem dois personagens extremamente populares até hoje: De um vampiro que inspirou a criação de Drácula 80 anos depois e o monstro de Frankenstein.

Mary Shelley escreveu Frankenstein e o mito do moderno prometeus com 19 anos. Os paralelos entre o Viktor Frankenstein e o Titã são amplamente discutidos. No século XIX houve um resgate da mitologia grega na literatura. Para que a gente faça esses paralelos, vamos resumir aqui a história de Promoteus: Promoteus entregou o fogo aos humanos e por isso foi castigado por Zeus a ficar preso no alto de um penhasco e ter seu fígado bicado todos os dias por um arbutre. E todos os dias ele se regenerava para no próximo dia ser bicado novamente. Assim Promoteus sofreu até que um dia Hércules o liberta. Para entendermos o que o Victor Frankenstein tem a ver com Prometeus, vamos então a uma sinopse da história de Shelley:

Num barco no ártico, o capitão Walton em cartas para sua irmã, conta a história de um rapaz, Victor Frankenstein, que ele salva das águas geladas, após a fugir de um monstro gigantesco. Ele era um inglês que foi estudar em Ingolstadt e ficou obstinado em descobrir como criar a vida. Após várias experiências ele cria um monstro e foge de volta para casa ao se dar conta do que fez. O monstro então incia uma jornada em busca de seu criador e apesar de sua essência bonsoda inicial, suas experiências no mundo o deixam cada vez mais rancoroso e vingativo.

A história é contada através de cartas. A princípio estão na primeira pessoa, pois o capitão Walton conta para sua irmã das suas experiências no navio de pesquisa. Mas assim que Victor entra no barco, o narrador muda de perspectiva e vai para a 3a pessoa. Walton, conta sobre o que Victor o contou. E parte do que Victor conta vem da conversa que ele teve com o monstro. Acho que é um dos focos narrativos mais intressante pois traz essa ideia do telefone sem fio e fica óbvio que muita coisa se perde. Walton constantemente deixa clara a sua perspectiva subjetiva em relação a Victor, sempre num tom piedoso e admirado pela sua inteligência e seu feito. Já faz alguns anos que eu li, foi em 2012, mas na memória ficou uma narrativa num tom empático.

O fogo de Prometeus faz uma alusão ao conhecimento humano. Ele pode ser usado tanto para o bem (se aquecer, cozinhar, produzir utensílios domésticos etc), quanto para o mau (criação de armas, por exemplo). Ao buscar pelo conhecimento Victor Frankenstein usa-o de forma irresponsável e acaba criando algo que no final se torna mau. Além disso, assim como Prometeus, Victor Frankenstein passa a sofrer diariamente as consequências de seus atos, sendo impossibilitado de ser feliz novamente.

Mas o livro não se trata apenas de uma analogia a mitologia grega, ou uma ficcção científia rasa. Marz Shelley critica de forma aberta a religião. O criador que abandona sua criatura a própria sorte e o deixa sofrer todo tipo de horror e mazela.

Outro ponto que eu extraí do livro é o quanto nós, humanos, tememos tudo aquilo que não conhecemos. Esse temor inicial nos transforma em próprios monstros. Frankenstein é atacado e humilhado simplesmente por sua aparência, por ser diferente. Não encontrou empatia nem mesmo do seu criador. Um século depois do livro de Mary Shelley ser publicado, a Europa saía de uma Guerra e estava prestes a entrar em outra. O nazismo combatia tudo aquilo que fosse diferente do que a ideologia pregava ser o padrão a se seguir. Até hoje a gente percebe o quanto na sociedade é difícil que se aceite aqueles que fogem dos padrões pré-ditados o que leva com que as pessoas hajam de maneira totalmente preconceituosa, sendo homofóbicas, racistas, xenófobas… Talvez nós projetamos no desconhecido nossos prórpios monstros?

E dentro deste contexto eu também percebo claramente na obra dela esta visão do quanto que nossas experiências em sociedade são capazes de nos formar e transformar quanto indivíduos. Todas a natureza ingênua, curiosa e até bondosa do monstro é corrompida pela maneira cruel que os homens o trata. Frankenstein pode ser o menino no sinal que quer vender sua bala, que pede esmola, o mendigo deitado na rua… Frankenstein é a minoria oprimida, vive às margens da sociedade. Sua aparência por si só causa medo. Alguma semelhança com nossa sociedade brasileira?

Se depois desta resenha, se é que eu posso chamar isso de resenha, você não largar tudo que está lendo e embarcar naquele navio de pesquisa do capitão Walton para ler dele a história de Frankenstein e seu monstro, eu então preciso arrumar outra coisa para fazer na vida.

Mary Shelley é um dos grandes exemplos de autoras para mim, sua obra influenciou o mundo e por muitos anos ela foi rebaixada “apenas” à escritora de Frankenstein e organizadora das obras do marido após sua morte. Mas recentemente o interesse sobre ela tem crescido e várias outras obras dela voltaram a ser estudadas pelos acadêmicos de literatura. Nas suas obras, Shelley apresenta a influência da obra de sua mãe em sua prórpia obra. Ela defendia que aconstrução da sociedade ocorre de maneira a sufocar e oprimir as minorias e que há necessidade de mudanças sociais neste sentido, através da união dos oprimidos contra os opressores. Ainda vai haver um perfil da Shelley aqui na série de posts sobre autoras e lá eu vou trazer mais da Shelley para vocês, mas por enquanto eu paro aqui, pois o assunto é Frankenstein.

Quem vai ler ler o livro após essa resenha?

Quem quiser ler pode baixar em diversos formatos gratuitamente pois está em domínio público. Clique aqui para baixar do Lê Livros.

A USP disponibiliza um livro sobre o Frankenstein: o mito de Frankenstein: imaginário e educação. Link de download aqui.

Gostou do post? Tem sugestão de temas para o blog? Elogios (adoro biscoito!)? Então deixa seu comentário aí embaixo, isso ajuda bastante na hora de produzir novos conteúdos.

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Até o próximo post!

A mãe do feminismo – Mary Wollstonecraft

Há quem diga que Mary Wollstonecraft foi uma mulher a frente de seu tempo. Eu não sei vocês, mas eu odeio essa expressão! Quando alguém pensa algo considerado revolucionário para sua época, essa pessoa não está a frente de seu tempo. Ela está em seu tempo. Ela observa o que acontece, como ela e os outros vivem, o que ela considera certo e errado e a partir daí ela expressa isso em sua obra e em sua vida.

Foi isso que Mary fez. E como vocês já viram nos outros posts da série (clique aqui para ver as outras mulheres já retratadas no blog), outras mulheres fizeram isto também, já muito antes. Acho que usamos essa expressão para demonstrar nossa surpresa, já que de lá para cá, por mais que tenhamos vivido muitas mudanças (graças a essas mulheres feministas) os temas relacionado à mulheres, matrimônio, maternidade, acesso a educação e direitos trabalhistas, continuam pauta de muita discussão.

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Escritor de personagens ou de tramas?

No livro “Plot versus Character” o autor Jeff Gerke discorre sobre o fato de ter esses dois tipos de escritores e que raramente um escritor domina naturalmente os dois âmbitos de uma narrativa. E é importante para você como autor, se empenhar em dominar a área onde você é mais fraco, pois para que a ficção tenha sua força, é necessário ter uma história que intriga e engaja.

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